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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Um outro lado da história

Nos posts anteriores, eu me ative a falar da parte triste e difícil de ser um morador de rua. Em minha entrevista com Seu Vanderlei, ele falou da casa das meninas que ele cuida, que tinha sido invadida. Falou de alguns abusos sofridos, principalmente por parte de policiais e fiscais da prefeitura. No entanto, nem sempre quem parece ser somente abusado deixa de abusar.

Para explicar melhor, outro dia, naquela mesma rua, a Ulhoa Cintra, no bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte, ouvi uma história diferente sobre Seu Vanderlei. Fui perguntar se a relação dele com o público da rua era tranquila e descobri alguns novos fatos. Segundo o dono de um escritório de contabilidade, Felipe Drummond, esse mesmo Vanderlei que se diz abusado por parte de fiscais da prefeitura e policiais, comete alguns abusos. Não só abusos simplesmente, mas crime. Felipe afirma que Seu Vanderlei está abusando de algumas meninas. “Ele está aliciando meninas, de uns 14 ou 15 anos, e transando com elas aqui na rua. E em plena luz do dia”, afirma. Ele ainda disse não ser o único a ter visto o fato. Uma mulher que trabalha no único prédio comercial da rua, que tem apenas um quarteirão, também teria visto o ocorrido. Fui até o prédio para procurar essa mulher, mas, como Felipe não soube dizer em qual andar ela trabalhava, o porteiro Gilvan da Costa também não soube dizer quem era ela. No entanto, ele afirmou também já ter ouvido sobre o ocorrido. “Já ouvi algumas pessoas comentando aqui. E, realmente, ele aparece com umas meninas novinhas na rua. Mas o ato em si, eu nunca vi não”, pondera.

Esse ocorrido me fez pensar em até que ponto os abusos da sociedade, como é o caso dos fiscais e policiais sobre Seu Vanderlei, pode afetar uma pessoa a ponto dela também abusar de algo, ou alguém. Não que eu o esteja defendendo. Estou criticando. Fica aqui um questionamento para todos fazerem.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Morador de rua por opção

Cristiane, Dayane e Vanderlei ao lado do quarto feito de papelão em que dormem
(Foto: Mayko Silva)


Vanderlei: “Um dia eu vou largar esse trem aqui e vou embora pra casa”


Cena comum nas ruas de toda grande cidade do país é a presença de moradores de rua. No bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte, não é diferente. Na rua Ulhoa Cintra, que tem apenas um quarteirão, Seu Vanderlei Soares, de 53 anos, vive com mais três adolescentes, Dayane, Cristiana e Léo, e uma mulher, que ele não quis dizer o nome. O senhor, que afirma ter nascido e sido criado na rua, tem casa, mas prefere viver entre seu “povo”, como ele mesmo define. “Eu gosto de ficar mais na rua que em casa sabe. Eu prefiro ficar aqui, porque eu fui criado e nascido aqui”. Ele é catador de papel, tem um filho de 28 anos, que mora no bairro Morro Alto, e é separado há mais de vinte anos.

Vanderlei fala que mora na rua onde ele está porque ele pensa nisso como um dever. Ele prefere morar na rua e ajudar as pessoas que ele trata como se fosse família, como é o caso de uma das meninas, Dayane, do que dormir sob um teto, e ficar sozinho. “Eu não fui embora pra casa até hoje por causa desses meninos aí. Eu cuido de todo mundo aqui. Eu estou aqui nessa vida por causa desse povo”, diz. O homem explica que o motivo principal para cuidar dessa nova “família” é o fato de, ao contrário dele próprio, a mulher e os três adolescentes não terem onde morar. “Eles perderam a casa, invadiram a casa deles no Taquaril”.

O senhor também fala que não vê problemas em morar na rua. Todos no bairro, que ele diz conhecer como se fosse a palma de sua mão, o respeitam e ele nunca sofreu nenhum tipo de preconceito por causa de sua situação. Além disso, ele recebe ajuda para se alimentar. “Tem uns que quando passam deixam um ‘marmitex’ aqui pra gente. Mas quando não vêm, eu mesmo arrumo aqui pra gente, no restaurante ali da esquina. Qualquer lugar que eu for aí eles dão. Todo mundo aqui me conhece. Aqui todo mundo me respeita. Nós não somos de bagunça. É tranquilo”, afirma. Apesar disso, ele não quer viver pelo resto da vida na rua. Um dia ele pretende ir embora, quando as pessoas que ele cuida não precisarem mais de sua ajuda. “Um dia eu vou largar esse trem aqui e vou embora pra casa. Deixa só resolver os problemas daqui”.


Abuso

A única reclamação que Vanderlei faz é em relação a fiscais da prefeitura e a alguns policiais. Segundo ele, muitas vezes alguns desses fiscais chegam e sem nenhum aviso pegam as suas roupas e as das outras pessoas que vivem com ele. “Eles levam tudo. Tudo que eles veem eles levam. Fazem maior ruindade com a gente aqui. Eles não falam nada. Saem pegando, põe dentro de caminhão e vão embora. Eles fazem covardia com a gente”. Ele afirma que para ele não é problema nenhum levar alguma peça de roupa dele, porque, por ele ter casa, ele tem até mais roupas, mas por conta dessas coisas que acontecem, Dayane e Cristiane só têm a roupa do corpo. Além disso, ele fala que há alguns abusos. “Eles chamam a polícia e põe a polícia pra bater na gente aqui. Uma vez eles bateram num menino aí, maior covardia da polícia”.